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[ Por um equilíbrio de forças ]

(na mídia)



por Luisa Duarte
fonte: Segundo Caderno - O Globo - 19 de setembro de 2011

Em meio ao frenesi da ArtRio, é hora de pensar na fragilidade dos outros pontos do circuito

O desejo não é fazer o papel de quem vem estragar a festa munida de algum tipo de frustração ou recalque. Nem de longe são estes os afetos que mobilizam esse texto. Mas sim uma necessidade de se instaurar um debate em meio ao alarido causado pelo sucesso da feira ArtRio, ocorrida na semana passada. Um êxito de vendas e de público – segundo a organização foram negociados em vendas de obras cerca de R$120 milhões e mais de 30 mil pessoas estiveram nos armazéns ao longo dos cinco dias de evento.

Antes de mais nada, faço coro aos que elogiam a feira, estive lá e, de fato, parecia muito bem produzida e organizada, bem como acho fundamental que o Rio de Janeiro volte a ter um papel relevante no circuito da arte do país depois de anos e anos eclipsado.

Uma feira é um dos vetores de um circuito de arte. O valor cultural e econômico de um trabalho de arte é estabelecido por uma espécie de rede que inclui diversos agentes – galerias, colecionadores, curadores, recepção do público, museus, instituições, jornalistas, críticos. O mercado tem um lugar nessa rede que valida artistas e suas obras, mas em um circuito desequilibrado como o nosso o lugar ocupado pelo mercado está, hoje, grande demais. E o problema não está no mercado, este faz cada vez melhor o seu papel. O problema está em outros pontos do circuito. Em um cenário no qual museus e instituições são extremamente frágeis, no qual acervos e coleções públicas são escassas, no qual o espaço para a crítica de arte é cada vez menor, em um cenário como este é preciso parar e pensar quando se testemunha um frenesi como o que se viu durante e após o sucesso da ArtRio.

Artistas se referindo ao evento como um “momento mágico”... Menos, menos. Seu sucesso é inquestionável e sua existência bem vinda. Mas será que a mesma elite econômica da cidade e do país que foi até a feira gastar o seu dinheiro tem olhos abertos para as instituições da sua cidade e do seu país – como vai o MAM, como vai o MASP? Vejam bem, acho que feira é feira, espaço não de reflexão e educação, mas de venda e compra de arte - mesmo que espaços curados como os Solo Projects promovam um respiro “reflexivo”. Assim, não reclamo para a feira um papel que não é o dela, mas reclamo da sociedade, de nós mesmos, dos agentes do circuito e do poder público – forte aliado da ArtRio – um olhar mais atento para as fragilidades do circuito como um todo.

No circuito do país, tanto o espaço para o exercício da crítica é escasso, quanto a formação de acervos públicos é frágil. A crítica é um lugar no qual elementos como aposta e dúvida têm vez. A presença da crítica é fundamental na constituição de um espaço público da arte. Na crítica existe a chance de se rever o consenso e contribuir para uma história da arte que nem sempre coincide com aquela desenhada pelo mercado. Já as coleções públicas de museus e instituições são os lugares por excelência para se contar uma história da arte e, consequentemente, os lugares para uma educação do olhar. Sem falar que espaços de ponta como um MoMa (Nova York) e uma Tate Modern (Londres) são hoje verdadeiros chamarizes turísticos de suas cidades. Só que, nestes casos, existe a inteligência de se aliar o turismo que rende dinheiro, com um papel consciente de elites econômicas que contribuem para a existência daquelas coleções públicas. No Brasil as elites econômicas ainda não têm essa consciência. É exemplar o caso do MASP. Na última década o museu chegou a ter a luz cortada por falta de pagamento quando era então presidido por Julio Neves, por sua vez arquiteto do edifício que abrigava a Daslu, o então maior complexo de vendas de roupas de luxo do país. Proximidade com os donos do dinheiro nunca faltou ao MASP. Mas se pergunte se alguém, algum dia, hesitou em gastar R$ 10.000 em uma roupa ou, no lugar disso, contribuir minimamente para o acervo do MASP ou a manutenção do maior museu da sua cidade e empreender assim um papel de cidadão que intervém no destino público da arte realizada no país em que vive e no qual crescerão os seus filhos?

A maior coleção de arte construtiva do Brasil, de Adolpho Leirner, foi oferecida mais de uma vez para instituições brasileiras. Nenhuma delas se interessou ou encontrou condições para viabilizar a compra. Resultado, a coleção encontra-se hoje em uma instituição norte-americana. O mesmo ocorreu com parte da obra de Helio Oiticica. Esses fatos relatam a nossa própria incapacidade de preservar e exibir tesouros da nossa cultura. Estes seriam passos fundamentais para a formação de um país, de uma cultura, e da gente que aqui vive.

Em um circuito de arte cujas forças são tão desequilibradas como é o caso do Brasil é preciso, em meio ao frenesi causado pelo evento ArtRio, recordar a nossa precariedade de fundo. A arte tem, em si mesma, uma capacidade de crítica, de ruído, de atrito com o mundo – “I shop therefore I am”, trabalho de Barbara Kruger que ilustra esse texto fala criticamente sobre a arte como mercadoria mimetizando a lógica da publicidade. Não edulcorar a relação entre arte e mundo, não domesticar a arte, é também o que pode ocorrer quando temos um circuito mais equilibrado. Ou seja, temos em mãos o desafio de instaurar um contexto no qual o descompasso entre os diversos vetores que constituem o circuito da arte seja menor. Para isso é preciso ter olhos abertos para perceber a importância de uma feira de arte, bem como também notar a fragilidade do contexto no qual ela está inserida.

Luisa Duarte, setembro 2011

[ texto: Sussuro da imagem ]

por Paula Alzugaray
Istoé, edição: 2112 30/04/2010
http://www.istoe.com.br/reportagens/68952_SUSSURO+DA+IMAGEM


Videoinstalação sugere a reconstrução metafórica de uma antiga
árvore dentro do espaço expositivo



Veterana da videoarte, Sonia Andrade incorpora indagações da poesia metafísica em nova videoinstalação

Uma frase (des)orienta o visitante da exposição de Sonia Andrade. Impressa na parede da entrada da instalação, “Get With Child a Mandrake Root,” é o título da exposição e corresponde a um verso do poema “Song”, do poeta inglês John Donne (1572-1631). “Donne sempre pede ao leitor coisas impossíveis”, diz a artista. “Como emprenhar uma raiz de mandrágora?” Esta é a quinta exposição em que Sonia se refere aos versos do poema de Donne. Se a linguagem poética desse autor se presta mais a criar enigmas do que a elucidá-los, a videoinstalação de Sonia funciona também como escavação aos sentidos ocultos de plantas mágicas e de poemas antigos.

A raiz da mandrágora, como explica a crítica Marisa Flórido Cesar no texto de apresentação da exposição, é cultuada e temida em várias culturas pelos poderes alquímicos, afrodisíacos, narcóticos e analgésicos que lhe são atribuídos. Segundo uma lenda medieval, o momento de sua colheita era cercado por lamento tão terrível que poderia matar. Seguindo o viés metafórico e metafísico de Donne, Sonia representa a mitologia da mandrágora com a gravação em vídeo das raízes de uma antiga árvore chorona do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que se projetam para fora da terra. A árvore, que no parque se agiganta em direção ao céu, é apenas adivinhada no espaço da exposição. Nas paredes, 25 telas de vídeo dispostas em linha irregular desenham um mapa das raízes, como se também escrevessem um texto. A pequena dimensão das telas dá a esse texto videográfico a qualidade de um segredo. Em cada tela, surgem pequenos acontecimentos – uma formiga que passa, uma brisa leve sobre a folhagem da grama – que nos fazem apenas intuir o crescimento invisível das raízes. Em vez de berrar como a mandrágora, as imagens de Sonia sussurram a sutileza de seu movimento.

A exposição comporta-se como uma reconstrução poética do espaço do Jardim Botânico, que é também representado em dois travellings de um de seus muros. Um deles corresponde ao primeiro vídeo da artista, gravado em 1974 com uma câmera Portapak, primeiro equipamento de vídeo portátil já lançado. Um exemplar foi trazido para o Rio por Jom Tob Azulay, que colocou a câmera à disposição de artistas cariocas, fomentando assim as experiências pioneiras com videoarte no Brasil. A tela em frente exibe o mesmo muro, gravado em 2010, com uma câmera DVC PRO-HD de última geração. Os dois muros conduzem o visitante à imagem final da exposição: uma flor de lótus, posicionada como em um altar. Com essa imagem, Sonia parece responder ao enigma de Donne: o verso sugere, afinal, que a magia floresça e espalhe seus frutos.

[ texto: O construtor de ruínas ]

por Paula Alzugaray
revista Istoé
Edição: 2113
07/05/2010
http://www.istoe.com.br/reportagens/70708_O+CONSTRUTOR+DE+RUINAS



Transverso - Caetano Dias/ Galeria Paulo Garzé, Salvador/ até 20/5

“Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que a ruína é uma desconstrução.” A frase de Manoel de Barros, apropriada por Rosângela Rennó e utilizada em sua instalação “Matéria de Poesia”, que esteve em cartaz até o dia 8 na Galeria Vermelho, em São Paulo, poderia ser transportada para o contexto da individual de Caetano Dias, em Salvador. Uma ruína não se constrói, mas em “Transverso” o artista baiano interpreta a ruína social produzida pelo alagamento da cidade baiana de Remanso para a construção da Represa de Sobradinho, em 1978. Da cidade, restaram as lembranças de antigos moradores, recolhidas no videodocumentário “1978 – Cidade Submersa”. Sobrou também a visão de uma caixa-d’água, flutuando como um farol, marcando a presença de um passado apagado pelo nível de água. O objeto foi documentado na série fotográfica “Água Invertida” e reinterpretado em uma escultura, fabricada em resina e cimento, intitulada “Edifício 510” (foto). Índice solitário da história de Sobradinho, o edifício alagado tem presença central na exposição.

A água e as marés, suas enchentes e vazantes, são os temas aqui tratados. Para o crítico Josué Mattos, “Caetano Dias conjugou a existência de tempos paralelos”, aproximando os acontecimentos de 1978 das tragédias que anualmente matam e desabrigam famílias durante a época das chuvas. Na galeria, o edifício está cercado de vídeos e imagens fotográficas que contribuem para essa narrativa da enchente. As fotos da série “Construção” mostram ruínas de edifícios destruídos por infiltrações, e na videoinstalação “Submerso” um corpo mergulhado em água é projetado sobre um piso de cerâmica, que poderia muito bem pertencer ao “Edifício 510”.

[ textos recomendados: ARTE BRA e o prazer de ler sobre arte ]

(internet)

por Fred Coelho
10/05/2010

(...)
Essa introdução dispersiva serve apenas para falar do impacto da leitura desse poema-resposta de Zerbini a Waly (e dessa relação poética típica do Rio de Janeiro, poesia-arte via editora Dantes, encontros no Jardim Botânico, histórias que devem ser esmiuçadas, coisas nossas na cidade que todos adoram dizer que nada acontece – mesmo que ao menos algo aconteça). E serve principalmente como porta de entrada do verdadeiro prato-assunto do dia: ARTE BRA. Conheces? Gostas de arte? Manjas os papos difíceis da crítica? Espantas as famílias burguesas com sua ira contra o sistema da arte? Então se afaste de ARTE BRA. Pois a coleção de livros da AUTOMÁTICA sobre artistas brasileiros contemporâneos e suas carreiras (...)

continue a leitura em: objetosimobjetonao.blogspot.com/2010/05/arte-bra-e-o-prazer-de-ler-sobre-arte.html

[ Na Rede - parte 2 ]

(textos)

por Cristine Melo

(continuação)
Em SATMUNDI: 1)ARTEMUNDO;2)BODY;3)PATHOS (www.satmundi.com), Ricardo Barreto propõe que compartilhemos um mundo. Satélite mundo? Trata-se de um site experimental integrado por outros proponentes, em que extrai dele três trabalhos pessoais. Em ARTEMUNDO expressa um manifesto sobre o devir da arte na contemporaneidade e a maneira como problemas da ecologia, da genética, dos direitos humanos, dos meios de comunicação de massa e das minorias se introduzem nesse campo. Avatares mediam conexões entre a realidade ali compartilhada e links com outros sites (mais de 600) são acionados, no envio das nossas próprias reivindicações políticas para organizações não-governamentais. Em BODY, oferece reflexões e novas experiências sobre a questão do corpo no mundo virtual, e em PATHOS, gera uma paisagem onírica, realista mas quase abstrata, como em Turner, a partir de uma ferramenta de criação 3D, no próprio VRML. Uma espécie de desvio criativo do uso dessa ferramenta, ou subversão do uso convencional dessa escrita.

Cronofagia (www.paleotv.com.br/cronofagia), de Kiko Goifman e Jurandir Müller, aborda a violência, o tempo e a sobrevivência das imagens na Internet. Como bergsonistas do ciberespaço, impregnados de forte consciência conceitual, empreendem uma narrativa-limite calcada em matéria/imaterial e memória. Uma imagem ocupa a página central do trabalho; ao ser clicada, essa imagem dispara o que se denomina relógio web. Pasmem: clica-se algo e nada acontece, nenhuma ação imediata. A partir de um determinado número de cliques, gradualmente são disparadas ações de destruição e desmaterialização da imagem. Durante o período da Bienal, serão sistematicamente substituídas imagens mortas por imagens novas. Voracidade e homicídio coletivo na rede.

Em sentido inverso, O Sol de sempre (paralelosclandestinos.net) de Enrica Bernardelli traz questões sobre o espaço e a transcendência. O sol como meio de interligar a humanidade tanto quanto a Internet. Espaços sem limites. O espaço puro. É impossível acompanhar o movimento (da rede) dos astros mas é possível nos localizarmos pelos (URLs) paralelos. Em resposta ao não-objeto, Bernardelli media seu trabalho por uma celostato, máquina ótica de captar a imagem do sol (um objeto celeste). A imagem do sol on-line e ao vivo, sob o ponto de vista do planetário da cidade do Rio de Janeiro, a partir do paralelo 22 e do meridiano
43. Enquanto uma câmara capta essa imagem, um computador a recolhe e a envia para um servidor de rede, que permite, no acesso do usuário, o reencaminhamento de sua sombra - ou o seu paralelo clandestino -, que passa a intervir e a inserir-se no sistema. Durante o período da Bienal, Bernardelli fará habitualmente o percurso de sua casa ao planetário, recolhendo objetos que encontrar pelo caminho, para que possa gerar sombras com eles. Desmistifica o sol como símbolo de poder e o coloca acessível, comum, para todos.

Lucas Bambozzi direciona, em Meta4walls (www.comum.com/diphusa/meta) conflitos derivados do uso público e privado na Internet. Disponibiliza lixos da rede - mensagens invasivas, que recebe de forma não-autorizada - por ele colecionados desde 1999. Denota as distorções, os excessos e desvios da rede. Ao mesmo tempo, o mondo cane, que preferimos não ver. A tela inicial é artifício de voyeur: como o olho que espreita por trás da porta, vemos, enquadrada, uma pintura de Coubert, para logo em seguida sermos remetidos
a outro tipo de imagem, extraída provavelmente de um site de pornografia, mas sob o mesmo ângulo da anterior. A partir daí dissolvem-se as fronteiras entre mundo real e fictício na construção de uma narrativa que nos encaminha a links e mais links pela rede. A obra se instaura sobre o processo de metalinguagem. Como retorno, mensagens de controle: nada é impune no confronto das mídias com a vida real.

Lúcia Leão, em seus Plural Maps: Lost in São Paulo (www.lucialeao.pro.br/pluralmaps), incorpora labirintos construídos em VRML e links que levam os usuários a interagirem com web cams espalhadas em pontos específicos da cena urbana. A metrópole vista como um rizoma, em que cada cruzamento é um ponto (de partida ou chegada), e todos esses pontos se conectam com o todo. Mapas plurais, subjetivos, um vidro da cidade, ou um outro modo de perder-se no grande labirinto que é a rede.

Gilbertto Prado, outro pioneiro da arte telemática no Brasil, nos oferece em Desertesejo www.itaucultural.org.br/desertesejo), um mundo construído em VRML, a ser navegado em ambiente de realidade virtual interativo, multiusuário, que permite a presença simultânea de até 50 participantes. Uma narrativa com características imersivas: o visitante entra nesse mundo como um avatar - termo denominado, na filosofia hindu, como corpo físico - e é transportado como uma onça, uma cobra ou uma águia. Percorre paisagens desérticas, na tentativa de estabelecer contato humano mediado por outro avatar. Em um desses ambientes, Viridis, uma webcam, é conectada à Internet para captar imagens do céu em tempo real. Cada visitante imprime, assim, o seu próprio céu. O resultado é um céu coletivo, gerado on-line. Econtros virtuais, repletos de silêncio mítico, suspensão no tempo/espaço e associações oníricas.

Ouroborus (artecno.ucs.br/ouroboros), apresentado por Diana Domingues e o Grupo Artecno, permite-nos compartilhar experiências num viveiro de cobras. Insere o simbolismo da serpente mítica, que come a própria cauda, ligado ao ciclo da vida e à morte. A idéia de início e fim como um interminável continuum, tanto quanto os mundos sintéticos. Conexões do corpo em ambientes virtuais geram aqui deslocamentos em mundos artificiais. O corpo interfaceado por mouse, teclado, joystick, headphone e microfones, ao ser mediado por um robô com uma webcam acoplada em sua cabeça, produz contato com as cobras. Telepresença na rede e ação remota no mundo natural. Desígnios recentes, rumo à arte transgênica e biotecnológica. Um conjunto desenvolvido na emergência da arte da informação, pensado como instrumento de imaginação conceitual e de conceituação imaginativa11. Uma arte que faz alarde pela liberdade e que busca desviar dos aparelhos, intenções meramente calcadas nos interesses econômicos12. Uma arte movida pelo desejo, pela experiência, pelas incertezas, que promove grandes viagens nas redes imaginárias da contemporaneidade.

Christine Mello foi Curadora-adjunta do segmento RepresentaçãoBrasileira - Sala Especial Net Arte - 25 Bienal de São Paulo.

1 Arlindo MACHADO, O Quarto iconoclasmo e outros ensaios hereges. Rio de Janeiro:Rios Ambiciosos, 2001.

2 In: "... O princípio do movimento se impôs ao do lugar", http://www.uol.com.br/artecidade/2002frame_ie.htm (09/02/02).

3 Lucia LEÃO, A Estética do Labirinto, Tese de doutorado, São Paulo, Programa de Comunicação e Semiótica, PUC/SP, 2001.

4 Robin BARGAR e Insook CHOI, Ground truth, Timothy DRUCKREY (org.), in: Ars Electronica: facing the future, Massachusetts: The MIT Press, 1999.

5 Extraído de uma citação sobre J. M. Floch, in Nancy BETTS, A Intertextualidade na obra de Nelson Leirner, Dissertação de Mestrado, São Paulo, Programa de Comunicação e Semiótica - PUC/SP, 2002.

6 Algumas das associações aqui sugeridas entre rede e cidade foram feitas em conjunto a Daniel Sêda, em 12/02/02.

7 In: Fábio DUARTE, Arquitetura e tecnologias de informação: da revolução industrial à revolução digital, São Paulo:FAPESP / Editora da UNICAMP, 1999.

8 Vilém Flusser (1920-1991), filósofo nascido em Praga, foi um dos mais radicais pensadores dos meios tecnológicos. Viveu no Brasil por um longo período, em que ministra aulas e escreve textos críticos. Entre seus alunos, o artista multimeios Otávio Donasci, em entrevista concedida em 02/02/02, relata conceitos de Flusser sobre a vida nas cidades, que foram apresentados nos EUA nos 1980, antes mesmo do surgimento da Internet.

9 Gilbertto PRADO, Cronologia de experiências artísticas nas redes de telecomunicações, in: Revista Trilhas n. 6,v. 1, Campinas: Unicamp, 1997.

10 www.artmuseum.net/w2vr/timeline/Futurist.html (09/02/02).

11 Conferência de Vilém Flusser durante a XVI Bienal de São Paulo, sobre Imagem-Imagem Técnica.

12 Associação a partir de idéia extraída do artigo "Os novos rumos da holografia", de Arlindo Machado, para o Jornal Folha de São Paulo de 23 de outubro de 1984.

volta à parte 1

[ Na Rede - parte 1 ]

(textos)

por Christine Mello

Ao fluxo quantitativo das mensagens utilitárias econfortantes que trafegam diariamente nos canais
majoritários da mídia a arte responde com
a incerteza, a indeterminação e o desconforto existencial1.
Arlindo Machado

A contemporaneidade instaura novos paradigmas nas artes a partir das possibilidades introduzidas pelas redes de comunicação. A cultura movida pelas mídias proporciona uma geração de artistas interessada nas linguagens numéricas e nos recursos oferecidos pelos meios digitais interativos e pelas telecomunicações.

Preocupam-se com as transformações políticas e sociais estabelecidas a partir disso, criam mediações simbólicas e pesquisam novos significados para o trabalho artístico e sua forma de recepção. Relacionam-se de maneira ativa com o meio tecnológico, agenciando o instrumento: não mais aceitam o modo contemplativo e participativo atribuído anteriormente ao meio eletrônico. Uma arte aberta, efêmera, descontínua. Fluida pela mídia.
Deslocalizar

Pensar na arte da rede implica não só pensar nos trabalhos que intervêem nos fluxos informacionais, mas também em seus proponentes e no modo como refletem a grande rede que é hoje a cidade contemporânea. Mapas de percursos imprevisíveis são situações muito mais relacionadas ao movimento do que aos lugares2. Como o viajante do labirinto, perde-se a visão global e panorâmica do espaço total a ser percorrido3 e é só por intermédio da experiência vivida que se recuperam os sentidos.

O contexto de trabalho é a rede e o conteúdo, o modo como a obra é construída nesse ambiente virtual. O artista se firma como provedor de conteúdo e sua ação denota uma performance coletiva. Ele não está isolado no processo criativo, é na co-presença e na troca com o outro que a obra se realiza. Deslocamentos da autoria, trânsitos contínuos. O conteúdo não é o que se coloca na composição, mas sim o modo como se prepara o sistema4. O sistema identificado como o conjunto das relações de diferenças e semelhanças, e o processo, como o conjunto de agenciamentos dos elementos selecionados5. O sistema passa a ser a construção, e a obra, uma prática viva.

Ruas, viadutos, transeuntes e grandes anéis viários: links, interfaces, arquivos e servidores. A rede torna-se a própria metáfora da cidade: reproduz no microcosmo informacional a cena urbana, com todas as suas qualidades e infinitos problemas. Ao problema insolúvel dos engarrafamentos, a cidade virtual propõe como solução a banda larga, logo saturada também com o aumento exponencial dos sites e dos acessos. A cidade da informação mantém sua velocidade e seu fluxo na proliferação de avenidas invisíveis, no transporte de mensagens via fibra ótica, fios de cobre e cabos6.

Ao problema do espaço na metrópole opõe-se, na rede, o problema do tempo: como percorrer todas as informações que interessam, se o tempo necessário é maior do que o que podemos dispor? Como indica Paul Virilio, trata-se de um tempo desvinculado do tempo cronológico, caracterizado por ações simultâneas, o tempo das dias7. É necessário saber os atalhos, fazer expedições, usar a experiência humana e os mecanismos de busca para as investigações. Como uma poética dos fluxos ininterruptos, a recepção da obra flui num ambiente altamente dispersivo, um organismo de relações hipermidiáticas, on-line 24 horas por dia. A ação artística se realiza em um espaço descontínuo, sem volume, e o tempo revela-se sob a forma de ubiqüidade. O trabalho organiza-se em comunidade e em escala mundial, e é calcado em termos de trocas e simultaneidade. Uma esfera global, interligada e pública. Wired city, como já pensava Vilém Flusser8.

Arte na rede pressupõe, assim, estratégias formais de presentificação do tempo de forma compartilhada, inseridas no contexto da arte telemática. Procedimentos vivenciados também na fax arte, slow-scan TV (televisão de varredura lenta), videotexto, ligações telemáticas, televisão interativa via satélite ou na telepresença. Bem como em muitas das estratégias já conhecidas pela mail art9. Supõe conhecer propostas experimentais, que dialogam com as relações arte/vida e homem/máquina/espaço.

Os trabalhos artísticos nesse meio são não-objetos, não-locais, em constante transformação. Integram uma tradição nas artes, desenvolvida ao longo do século XX e iniciada pelo futurismo — em que se procurava captar a velocidade, a energia e as contradições da vida contemporânea, assim como buscava um tipo de arte que pudesse ter um efeito totalizante10, interdisciplinar. Relacionam-se também em torno à desmaterialização do objeto artístico e à geração de narrativas-limites. Gestos radicais, como os empreendidos por Marinetti, Giacomo Balla, John Cage, Allan Kaprow, Nam June Paik, Roy Ascott, Jeffrey Shaw e Jodi (Joan Heemskerk e Dirk Paesmans), entre tantos outros.

Ambientes desterritorializados e presentificados on-line. Encontramos mudanças no processo da criação artística, no modo de articular as relações de autoria e na maneira como se propõem novas formas de estabelecer conexões em plena era da informação. Uma escritura das interfaces, não-linear e em tempo presente. Uma escritura compartilhada.

Fluir

Apresentamos trabalhos sob o domínio de espaços fluidos, que denotam a dissolução das fronteiras nas artes: em sua maioria produzidos em equipes e que se realizam a partir da co-autoria do usuário. Obras em processo, exploram as múltiplas relações e as marcas de transgressão poética — ou zonas fronteiriças — proporcionadas pelas híbridas linguagens, códigos de programação, dispositivos interativos, simuladores, interfaces gráficas e sonoras, web cams, ambientes colaborativos em tempo real e sistemas abertos de navegação no ciberespaço.

Em Ceci n'est pas un nike (www.desvirtual.com/nike), Giselle Beiguelman parte da imagem de um tênis Nike - extraída da própria Internet - e a confronta com o cachimbo de Magritte. É a dinâmica das discussões em torno ao que é a representação na rede que a interessa. Propicia uma situação-limite entre o que é superfície (site/nike) e o que é interface. Ao compartilharmos seu jogo poético, permite que o nosso próprio texto se insira ao trabalho, criando um grande palimpsesto coletivo, assim como um exercício de desfonetização da linguagem. Jogos novos também são possibilitados pelo uso de telefones celulares como mídia complementar, gerando simultaneidades entre website e wapsite.

Artur Matuck, um pioneiro no uso de redes e propostas colaborativas, cria em Literaterra/Landscript (http://bienalsaopaulo.terra.com.br/teksto), uma máquina datilográfica desregulada, que de-escreve textos, frases e palavras, substituindo letras e criando recombinações semi-ramdômicas. Uma máquina geradora e coletora de neologismos para expressar novas palavras e novos significados. Seu trabalho luta com os códigos moles do programa e permite que cada um de nós seja também um desescritor.

[ O Gasoso, O Borroso e A Estetização Difusa da Contemporaneidade ]

(textos)

por Guy Amado - Julho de 2005

Nos tempos turbulentos e "acelerados" em que vivemos, a existência se conforma em meio a uma profusão de códigos e padrões comportamentais cambiantes, hibridismos de toda espécie e ao surgimento de novas modalidades de pensamento, mais especializadas. A classificação de pós-moderno como emblema de uma época ou estado da cultura foi exaustivamente aplicada de diversos modos desde meados dos anos 1970, na tentativa de se buscar uma teoria que traduzisse o zeitgeist das últimas décadas. Fosse como definição de um estilo ou estado de espírito advindo de certa insatisfação com o modernismo na arte e na literatura, como tendência filosófica ou, ainda, de modo mais raso e abrangente, como a então mais recente época cultural do Ocidente, a teoria da pós-modernidade sempre esbarrava em inúmeras questões e problemas conceituais que se insinuavam tanto na descrição quanto na avaliação da arte e do pensamento que se propunha investigar, sendo hoje considerada superada ou insuficiente para abarcar a complexidade do estado das coisas que conforma a atualidade. O ceticismo que permeava boa parte do discurso pós-moderno [em larga medida vinculado a pensadores da escola estruturalista francesa], investindo na anulação ou suspensão de noções tais como verdade objetiva ou universalidade de significado, foi intensamente combatido por seus detratores, que de modo geral não viam nessa linha de pesquisa uma plataforma suficientemente consistente para abordar com propriedade a complexidade dos eventos que se propunham analisar.

Nesse contexto, fez-se pertinente a busca por outros canais de identificação com a realidade e as transformações de nossa era, mais atualizados e adequados à confecção de um diagnóstico da mesma; e um deles pode estar no que vem sendo descrito como uma "estetização difusa do mundo contemporâneo", como afirma o crítico de arte e teórico da estética Jose Luis Brea[1] . A importância da estética como interpretante do mundo contemporâneo é trabalhada e afirmada continuamente, em registros diversos, em teorias oriundas de diversas áreas do conhecimento, como a sociologia, a filosofia, a antropologia, a semiótica e ciências exatas como a matemática, a física e a cibernética. Investe-se mais e mais no excesso de especialização e na idéia de transdisciplinaridade, que se impõe como método procedimental mais afeito à investigação de fenômenos não mais passíveis de serem analisados em termos absolutos.

Seja qual for o juízo que se possa fazer sobre a ocorrência desse fenômeno da estetização, parece inevitável remeter sua origem à expansão das indústrias audiovisuais e de massmedia e à iconização exaustiva do mundo contemporâneo, associada à progressão das indústrias da imagem, do desenho e da publicidade. Esse fenômeno implicaria em conseqüências fundamentais sobre os modos de nossa experiência – e ainda sobre a própria constituição efetiva dos mundos da vida, sobre a constituição do real, mesmo que nem sempre nos apercebamos do fato.

Este mundo "estetizado" e debilmente definido, carente de alguma consistência em que assentar algum princípio firme de valoração das práticas - tanto estéticas como éticas – seria um mundo em que o homem já haveria perdido qualquer possibilidade de estabelecer seu próprio projeto frente à ascensão da tecnociência, no enfoque reticente de Brea. É também o mundo hiper-real diagnosticado por Jean Baudrillard, em que a cultura do simulacro e a polissemia de signos prevalecem sobre o cânone da representação, colaborando na configuração de uma experiência difusa em nossos modos de apreensão do mundo.

Nas sociedades atuais, a forma contemporânea de disseminação desta estetização supõe uma dinâmica claudicante, nos termos estabelecidos pelas ascendentes e poderosas indústrias do espetáculo e entretenimento, sob cujas regras e ditos se estrutura contemporaneamente a própria lógica da instituição "Arte". Uma lógica cujo enorme potencial de absorção parece desmobilizar qualquer gesto de resistência, qualquer tensão crítica, convertendo toda a retórica vanguardista da autonegação em uma falsa aparência requerida pelo jogo de interesses criados, aquela do choque e do "novo" que os próprios interesses de renovação periódica dos padrões dominantes do mercado institucionalizado de arte impõem. Mesmo as recorrentes "mortes da arte" contemporânea, para além de servirem para retro-alimentar a especulação no bojo desse mesmo mercado, se expressam nos termos de uma estetização generalizada dos mundos da vida e as formas da experiência.

À esta idéia de uma estetização difusa das sociedades atuais, desse ruído que permeia os modos de vida e as formas da experiência - a própria realidade, justaposta desta maneira ao mundo da cultura e da arte -, poder-se-ia contrapor dois outros conceitos específicos que de alguma maneira potencializam ou alargam o alcance daquela.

A primeira noção a ser aqui abordada, a propósito do referenciado processo de estetização difusa por que o mundo vem passando, e que certamente se alinha, em sua plataforma eminentemente relativista, provocativa e instigante, a algumas outras vertentes do pensamento contemporâneo, seria a teoria da "borrosidad", ou fuzzy logic - doravante levianamente aliterada para borrosidade -, tal qual postulada por Bart Kosko[2] . O pensamento borroso sustenta de modo geral que a forma de raciocinar em termos absolutos de verdadeiro ou falso já não nos serve, e que é preciso aplicar uma lógica "nebulosa", que capte os matizes acinzentados do mundo real, onde nada é absolutamente preto e branco. As verdades e certezas tomadas como relativas, e as "áreas cinzentas" traduzidas num modo de raciocínio por aproximação, ao invés da exatidão, permitiriam reflexões e descrições mais adequadas para determinados aspectos da realidade que nos cerca que o pensamento da lógica binária aristotélica.

A investigação dos fenômenos que abarcam a experiência da contemporaneidade pelas vias difusas da borrosidade consistiria, assim, em procurar compreender o mundo em suas nuances "cinzentas", em detectar a policromia de cinzas. Ao se aplicar um raciocínio amparado no binômio "preto-no-branco" para tentar compreender ou explicar um mundo cinzento, deve-se tratar algo que é tomado como verdadeiro em certa medida como se fosse ou inteiramente verdadeiro ("o copo está cheio") ou inteiramente falso ("o copo está vazio"). Cada passo em um processo racional requer uma simplificação desse tipo e, portanto, tende a adicionar outra camada de arbitrariedade e erro ao mesmo processo.

Abramos um parêntese para uma breve digressão acerca de alguns aspectos determinantes na da arte na atualidade. Se em outras épocas a arte já foi entendida como uma imagem da realidade, para a qual a história da arte oferecia uma moldura, na contemporaneidade porém ela já "escapou" desta moldura. As definições tradicionais já não dão conta de abarcá-la, com uma profusão de novas práticas proliferando, e não apenas valendo-se de meios e linguagens plásticas, mas originando-se de mídias eletrônicos ou de propostas envolvendo a biotecnologia, etc. Deslocando um pouco o foco, as práticas do âmbito das artes visuais nos dias de hoje ocupam também um espaço social paradoxal, a um só tempo "dentro" e "fora" da sociedade. Por um lado, elas estão plenamente integradas ao tecido cultural, social e econômico ocidental, onde existe uma poderosa rede pública e privada (galerias, museus, fundações, Bienais) que apóia e promove a arte contemporânea por meio de diversos mecanismos (aquisições, subsídios, isenção fiscal) e torna possível que o investimento em arte seja uma prática relativamente estável no mercado financeiro internacional. Mas apesar disso, a arte ainda parece ocupar uma posição relativamente marginal na sociedade atual, como se fosse apenas um elemento decorativo ou uma espécie ameaçada de extinção, mantida num santuário para garantir sua sobrevivência [de fato, em termos culturais, outras manifestações expressivas, como a música, cinema ou televisão têm relevância social muito mais intensa]. A produção artística, que em outras épocas causou grande impacto em sistemas sociais, tende a ser agora encarada como um tipo de excentricidade inofensiva, sendo avaliada com certa condescendência, em muito por conta de fatores como a banalidade que reveste sua prática hoje e a implacável lógica mercantil que a um só tempo a difunde e restringe ou amortece seu potencial transformador. A borrosidade apresentaria um instrumental adequado a uma análise do estatuto ambíguo que conforma o sistema da criação e circulação da arte hoje, fornecendo talvez uma via de acesso que permita introduzir "nuances de cinza" sobre esse cenário. Verificar, por exemplo, em que medida é ainda possível ou relevante pensar no significado visual e verbal da arte, frente às demandas e imposições do mercado e da presente cultura do espetáculo - em que a importância da obra de arte [e não raro do artista] é mensurada em termos da publicidade e da notoriedade por ela atingida; e, em caso positivo, descobrir quais seriam as mecânicas de suas instâncias de comunicação.
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Nesse panorama a um só tempo complexo e fugidio dos dias que vivemos, em pleno curso de um processo de globalização que se desenrola de modo tão inexorável quanto incerto, desenhou-se uma nova configuração cultural e sociopolítica do mundo que ressalta contrastes e acena com o abalo de crenças e o fim de utopias. A dinâmica que modularia a forma contemporânea do homem embater-se com o real, sua mediação com o mesmo, se dá sob a égide de uma potentíssima indústria da comunicação e impressionantes avanços tecnológicos que mais e mais influem diretamente em nossos modos de vida. Fez-se mister, assim, desenvolver novas formas de se analisar e assimilar o impacto dessas transformações junto à esfera da existência cotidiana. De modo emblemático dessa nova ordem mundial e da perda de referenciais inferida já em boa parte do pensamento pós-moderno, muitas dessas leituras - executadas por teóricos de áreas heterogêneas como a física, a economia política ou a filosofia - adotam um tom perpassado por certo "desencanto" - ou mero cinismo, como preferem os menos afeitos ao grau de abstração incutido nessas propostas. Desencanto a não ser necessariamente interpretado como um enfoque pessimista ou a ser associado de pronto à idéia de negatividade, constituindo-se antes como uma tática de abordagem que visa a formulação de diagnósticos mais compatíveis com o estado das coisas de seu tempo e ao surgimento de novas poéticas ligadas à incerteza e a definições incertas de formas e valores. Algumas dessas análises, contudo, até pela natureza relativamente "volátil" ou instável do objeto a que se dispõem analisar, eventualmente se baseiam em estruturas conceituais destoantes daquelas apregoada pelas convenções de sistemas de pensamento mais, digamos, tradicionais.

Ilya Prigogine, por exemplo, essencialmente um homem da ciência, interessado em analisar o papel e aproveitamento da mesma na sociedade e no futuro da humanidade, provocou estardalhaço e renovou a inter-relação entre ciência, filosofia e cultura quando chamou a atenção para as estruturas dissipativas da realidade [fenômenos de criação de ordem distantes do referencial de equilíbrio estabelecido pelas leis da termodinâmica, ou sistemas em não-equilíbrio] e o "fim das certezas", valendo-se também da Teoria do caos e do conceito de complexidade [que não caberia tratar aqui de forma mais demorada mas que grosso modo denotaria, na avaliação de teóricos especializados, que as coisas não apenas se "complicam", mas de alguma forma também se multiplicam, indo muito além do que seria um todo apenas justaposto, somado]. É evidenciada, na obra de Prigogine como na de pensadores atuantes em outros campos do saber, a importância da atuação da ciência contemporânea, imiscuída à filosofia ou a outras áreas, na relativização do conhecimento absoluto, estanque, e desestabilização do poder das "verdades" científicas – uma guinada na forma de se pensar o mundo que apresenta traços comuns, ainda que em graus diversos, com outras teorias abordadas neste texto.

É nesse contexto que se apresenta a segunda noção, ou conceito, igualmente emblemática da estética difusa da presente era supermoderna ou pós-industrial, proposta pelo filósofo Yves Michaud nos termos de uma arte em estado gasoso[3] – que poderia ser descrita em termos gerais como uma arte em que importa menos o objeto em si do que a experiência fugidia, flutuante, do receptor, ou espectador.

A produção artística atual, com a profusão de estilos, gêneros e subgêneros que lhe é peculiar, se apresentaria assim como uma “arte em estado gasoso”, na medida em que ela tende mais e mais a se expandir para todos os lados, assumindo uma fisionomia e uma dinâmica de apresentação volátil – num movimento que radicaliza a tendência que já se tentou definir como desmaterialização na arte -, além de romper com antigos dogmas como a premissa da "obra exclusiva". A arte contemporânea pode ser entendida, mesmo em seu presente estatuto incerto, como uma dentre muitas "realidades alternativas", com seu próprio conjunto de presunções tácitas, procedimentos e mecanismos abertamente proclamados para sua auto-afirmação e autenticação, tendo alcançado certo grau de independência da realidade "não-artística". Uma de suas características mais acentuadas reside numa perda sensível de seus elos tradicionais com o compromisso da "representação": ela já não admite que a "verdade" a ser captada pela obra de arte se ache em ocultação "exterior" – na realidade não–artística – esperando ser encontrada e receber uma tradução artística. Em vez de refletir a vida, ela passa a se somar a seus conteúdos, por meio de imagens e signos que mediam esse processo e que não mais representam, mas simulam – e a simulação, como postulado por Baudrillard, "...se refere a um mundo sem referência, de que toda referência desapareceu"[4]. Essa perda ou mudança de referenciais no âmago da visualidade contemporânea certamente contribui de modo incisivo para acentuar uma percepção "gasosa" da realidade.

A arte em estado gasoso apresentaria duas facetas ou tipos de "função": de um lado, uma hedonista, voltada para o prazer – mas uma nova forma de prazer, marcada pelo signo do cool, insinuante; e de outro, uma função expressiva cujo objetivo é demarcar identidades – inclusive suas próprias. Pensa-se aqui, segundo Michaud, em uma arte que tenha a ver com o jogo, a diversão, com práticas de lazer, mas contaminada por temas e referências cada vez mais provenientes de universos em princípio a ela estranhos; processo no qual essa arte, e a própria instituição-arte perdeu, em certa medida, parte de sua dimensão aureática, no sentido de simbolizar uma realidade transcendente, ou a "proximidade que manifesta uma distância", na bela definição de Walter Benjamin ("proximidade" esta que definitivamente parece não ter mais lugar na experiência de fruição da arte contemporânea; e, indo um pouco mais longe, se poderia acrescentar que a própria estética "não mais se revelaria como uma propriedade essencial ou definidora da arte"[5]). Uma arte ainda calcada na experiência e no sensitivo, que se dá em uma época em que as capacidades perceptivas humanas de base não mudaram, mas sim seus modos de intervenção nas condutas artísticas; e em que a arte, enfim, teria perdido parte de seu poder de transformação. E o modo como a experiência estética se dá no bojo desta arte é cada vez mais nebuloso: se o seu repertório aumenta, se vê reduzida na mesma proporção a capacidade de atenção e fruição do espectador diante da mesma, em função do bombardeio de informações e estímulos visuais e subseqüente instâncias de "anestesiamento" a que nosso olhar vem sendo submetido, bem como à profusão de códigos específicos que passaram a ser requeridos para a efetivação desta experiência pela produção contemporânea.

O termo "estado gasoso" designaria assim um estágio determinado da evolução da cultura, um momento em que a arte certamente se volatiliza enquanto objeto, mas que [ainda] permite uma compreensão hedonista da experiência estética – de natureza envolvente mas flutuante e instável.
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Para concluir, essas questões e teorias sugerem que vivemos num mundo em que os fenômenos, como lembra Omar Calabrese[6], "já não falam por si sós e pela evidência. É preciso construí-los como objetos teóricos". E se não se detecta esta "objetividade imediata dos fatos", por outro lado os significados se apresentam como sugestões, permitindo convites ao seu estudo ou análise [mantendo a possibilidade eventual de sua demonstração], bem como sua interpretação e reinterpretação [também passível de ser realizada no registro da desconstrução]. Pouco ou nenhum significado se apresenta explicitamente; reforça-se a impressão que habitamos um mundo em que os signos flutuam em busca de significados e os significados se deixam levar em busca dos signos, contexto que reforçaria a pertinência da aplicação de conceitos como os que estimulam uma leitura da estética na contemporaneidade pelas vias do "cinza" e do "borroso".

notas:

[1] La estetización difusa de las sociedades actuales y la muerte tecnológica del arte, Madrid: Aleph Pensamiento, 1997.

[2] Pensamiento borroso – La nueva ciencia de la lógica borrosa. Barcelona: Crítica, 1995

[3] L'art à l'état gazeux – Essai sur le triomphe de l'esthétique. Paris: Stock, 2003

[4] In Baudrillard Live: selected interviews, ed. Mike Gane. Londres: Routledge, 1993.

[5] DANTO, Arthur C. After the end of art. Princeton, 1997.

[6] A idade neobarroca. Lisboa: Edições 70, 1988.